Garimpando Ações

Como ler os indicadores fundamentalistas de uma ação

Indicador fundamentalista é uma conta feita a partir de números que a empresa é obrigada a publicar: balanço, demonstração de resultado, proventos pagos. Cada um responde a uma pergunta específica e nenhum responde à pergunta que todo mundo quer fazer, que é se aquela ação vai subir.

Eles servem para outra coisa, e é uma coisa útil: transformar empresas muito diferentes em números comparáveis. Sem isso, comparar um banco com uma fabricante de calçados seria comparar impressões.

Esta página explica os indicadores usados neste site, agrupados pela pergunta que cada grupo faz. Os exemplos usam empresas fictícias e números redondos, de propósito: o que precisa ficar visível é a conta, não o mercado de um dia específico.

Quanto custa

O mercado está pagando caro por esta empresa?

P/L, Preço sobre Lucro

O que é. Quantos anos de lucro atual o mercado está pagando pela empresa.

Preço da ação dividido pelo lucro por ação. Dá no mesmo dividir o valor de mercado da empresa pelo lucro líquido do ano.

Um exemplo. Uma empresa vale R$ 100 milhões na bolsa e lucrou R$ 10 milhões no ano.

100 ÷ 10 = P/L de 10

A leitura clássica: mantido esse lucro, seriam necessários dez anos para que os lucros somados devolvessem o valor pago pela empresa.

Quando engana

Prejuízo torna o número inútil. Empresa que perde dinheiro tem P/L negativo. Isso não significa "muito barato", significa que a conta não se aplica. Não existe preço sobre lucro quando não há lucro.

Lucro de um ano atípico distorce. Uma venda de ativo ou um ganho tributário inflam o lucro daquele ano e derrubam o P/L. A empresa parece barata por um motivo que não se repete.

P/L alto pode ser expectativa, não exagero. O mercado não paga pelo lucro passado, paga pelo futuro. Uma empresa que cresce rápido tem P/L alto porque se espera que o lucro de amanhã seja maior. O número olha para trás, o preço olha para frente.

Cada setor tem seu patamar. Banco, elétrica e tecnologia operam em faixas naturalmente diferentes. Comparar o P/L de uma com o de outra diz pouco.

P/L explicado por inteiro: a conta pelos dois caminhos, por que o número muda tanto de um setor para outro, o que o lucro esconde e por que o mesmo P/L significa coisas diferentes conforme o juro.

P/VP, Preço sobre Valor Patrimonial

O que é. Compara o que o mercado cobra por uma empresa com o que a contabilidade diz que ela vale.

Preço da ação dividido pelo valor patrimonial por ação. Dá no mesmo dividir o valor de mercado da empresa inteira pelo patrimônio líquido dela.

Um exemplo. Uma empresa tem patrimônio líquido de R$ 10 milhões e 1 milhão de ações emitidas. Cada ação carrega, portanto, R$ 10 de patrimônio. Esse é o valor patrimonial por ação.

Se a ação está sendo negociada a R$ 20:

20 ÷ 10 = P/VP de 2

Na prática: o mercado está disposto a pagar R$ 20 milhões por um patrimônio contábil de R$ 10 milhões, o dobro.

Se a mesma ação estivesse a R$ 8, o P/VP seria 0,8. O mercado pagaria R$ 8 milhões por um patrimônio de R$ 10 milhões, menos do que está registrado no balanço.

Por que isso não define nada sozinho. Pagar acima do patrimônio pode ser perfeitamente racional, porque o mercado compra o lucro futuro e não o balanço passado. E pagar abaixo pode ser um preço justo para uma empresa que está destruindo capital.

Quando engana

Patrimônio é valor contábil, não valor real. Uma empresa de software tem pouco ativo no balanço e muito valor em marca, contrato e equipe. Nada disso entra no patrimônio, então ela aparece com P/VP alto sem que o preço esteja esticado. Já uma indústria pesada tem patrimônio grande por natureza, porque máquina e galpão entram no balanço. Comparar o P/VP de uma com o da outra é comparar coisas diferentes.

Barato pode ser desconfiança, não desconto. Quando o mercado paga menos da metade do patrimônio, às vezes é pessimismo exagerado. Às vezes é o mercado achando que aquele patrimônio não vale o que está escrito.

Patrimônio negativo destrói o indicador. Quando as dívidas superam os ativos, o patrimônio fica negativo e o P/VP também. Aí o número não é baixo, é sem sentido.

O par que revela mais que o número sozinho. P/VP alto acompanhado de ROE alto é o mercado pagando por rentabilidade comprovada. P/VP alto com ROE negativo é outra história inteiramente. O mesmo "caro" pode significar coisas opostas.

P/VP explicado por inteiro: por que o patrimônio contábil não é o valor real da empresa, por que banco e tecnologia vivem em patamares diferentes e como ler o indicador junto com o ROE.

P/EBIT, Preço sobre o Lucro Operacional

O que é. Parecido com o P/L, mas olha apenas o lucro que a operação gerou, antes de juros e de impostos.

Valor de mercado da empresa dividido pelo EBIT, sigla em inglês para lucro antes de juros e impostos.

Por que existe, se já temos o P/L. Porque o lucro líquido é afetado por duas coisas que não têm relação com a qualidade do negócio: quanto a empresa deve e quanto ela paga de imposto. Duas empresas com operações idênticas podem mostrar lucros líquidos bem diferentes só por causa disso. O EBIT isola a operação.

Um exemplo. Uma empresa vale R$ 200 milhões na bolsa e sua operação gerou R$ 25 milhões de lucro antes de juros e impostos.

200 ÷ 25 = P/EBIT de 8 Quando engana

Ele ignora a dívida. O P/EBIT olha o preço das ações, mas quem compra uma empresa endividada herda a dívida junto. Duas companhias com o mesmo P/EBIT podem custar coisas muito diferentes se uma delas tiver empréstimos a pagar. É exatamente o buraco que o indicador seguinte tapa.

EBIT negativo tem o mesmo problema do P/L negativo. Operação que dá prejuízo não produz múltiplo interpretável.

EV/EBIT, Valor da Firma sobre o Lucro Operacional

O que é. O P/EBIT corrigido pela dívida e pelo caixa. Responde quanto custaria comprar a empresa inteira, assumindo as dívidas dela.

O EV, ou valor da firma, é o valor de mercado somado à dívida e subtraído o caixa. Esse total é dividido pelo EBIT.

A lógica do caixa: se você compra uma empresa que tem R$ 50 milhões parados no banco, esse dinheiro volta para você. Você pagou menos do que parece.

Um exemplo que mostra a diferença. Duas empresas valem R$ 200 milhões na bolsa. As duas geram R$ 25 milhões de lucro operacional. Pelo P/EBIT, ambas custam 8.

A primeira tem R$ 100 milhões de dívida e nenhum caixa:

(200 + 100) ÷ 25 = EV/EBIT de 12

A segunda tem R$ 50 milhões em caixa e nenhuma dívida:

(200 − 50) ÷ 25 = EV/EBIT de 6

Pelo mesmo lucro operacional, a segunda custa metade da primeira. O P/EBIT não mostrava isso.

Quando engana

Depende da qualidade da informação de dívida e caixa, que vem do balanço e nem sempre está completa. E, como os anteriores, não funciona com lucro operacional negativo.

EV/EBIT explicado por inteiro: o que é o valor da firma, por que ele enxerga a dívida que o P/L não mostra e por que EBIT e EBITDA levam a conclusões diferentes.

Quanto rende

A empresa transforma capital em lucro?

ROE, Retorno sobre o Patrimônio Líquido

O que é. Quanto de lucro a empresa produz por ano sobre o capital que pertence aos sócios. É a resposta para a pergunta "esse dinheiro, aplicado aqui dentro, rende quanto?".

Lucro líquido dividido pelo patrimônio líquido.

Um exemplo. Uma empresa tem patrimônio líquido de R$ 100 milhões e fechou o ano com lucro de R$ 15 milhões.

15 ÷ 100 = ROE de 15%

A leitura é direta: cada real que pertence aos sócios gerou 15 centavos de lucro no ano.

A comparação que dá sentido ao número. Um ROE de 15% é bom ou ruim? Depende do que o mesmo dinheiro renderia parado. Se um título público paga 10% ao ano sem risco nenhum, uma empresa que rende 15% está entregando um prêmio pelo risco de ser sócio. Se o título paga 15%, a empresa está entregando o mesmo com muito mais incerteza.

Por isso a taxa básica de juros aparece no topo deste site, ao lado do rank: ela é a régua contra a qual todo retorno se compara.

Quando engana

Patrimônio negativo inverte o sinal. Prejuízo dividido por patrimônio negativo dá resultado positivo. Imagine uma empresa que perdeu R$ 300 milhões no ano e cujas dívidas superam os ativos em R$ 36 milhões:

−300 ÷ −36 = +833%

Dois números negativos dividem-se num positivo enorme. No papel, a empresa mais rentável da bolsa. Na realidade, uma companhia tecnicamente insolvente. Neste site, o ROE de empresa com patrimônio negativo é descartado em vez de exibido.

Alavancagem infla sem melhorar nada. Duas empresas dão o mesmo lucro de R$ 15 milhões. A primeira tem R$ 100 milhões de capital dos sócios e nenhuma dívida, o que dá ROE de 15%. A segunda tem R$ 30 milhões dos sócios e R$ 70 milhões emprestados, o que dá ROE de 50%. A operação é idêntica. O que mudou foi quem financiou.

Lucro de uma vez só. Venda de imóvel, ganho tributário, reavaliação de ativo. Tudo isso entra no lucro e infla o ROE de um ano que não se repete. Olhar a série histórica separa o que é recorrente do que foi evento isolado.

ROE explicado por inteiro: por que dívida infla o número sem a empresa ter melhorado, o que acontece quando o patrimônio fica negativo e a diferença entre ROE e ROIC.

ROIC, Retorno sobre o Capital Investido

O que é. Quanto a operação rende sobre todo o capital empregado no negócio, o dos sócios e o dos credores.

Lucro operacional depois de impostos, dividido pelo capital investido. O capital investido é o patrimônio líquido somado às dívidas, menos o caixa.

Um exemplo. Uma empresa tem R$ 100 milhões de capital dos sócios e R$ 100 milhões em dívidas, totalizando R$ 200 milhões de capital investido. A operação gerou R$ 40 milhões de lucro operacional. Descontados 34% de imposto, sobram R$ 26,4 milhões.

26,4 ÷ 200 = ROIC de 13,2%

Por que ele é o par natural do ROE. O ROE responde quanto rendeu o dinheiro dos sócios. O ROIC responde quanto rendeu o negócio. Quando os dois andam juntos, a rentabilidade vem da operação. Quando o ROE é muito maior, a diferença veio de dívida, e dívida cobra juros.

Quando engana

Não se aplica a banco. Para uma instituição financeira, captar dinheiro é a matéria-prima do negócio, não o financiamento dele. Tratar depósito como dívida produziria um número minúsculo e sem significado. Neste site, banco não recebe nota de ROIC pelo mesmo motivo pelo qual só banco recebe nota de Basileia.

Depende do balanço estar completo. Patrimônio, dívida e caixa precisam estar todos disponíveis. Faltando qualquer um, o capital investido fica errado.

ROIC explicado por inteiro: o que entra no capital investido, por que a dívida infla o ROE e não o ROIC, e o custo de capital sem o qual o número não significa nada.

Margem Líquida

O que é. Quanto sobra de cada real vendido, depois de absolutamente tudo: custos, despesas, juros e impostos.

Lucro líquido dividido pela receita.

Um exemplo. Uma empresa vendeu R$ 100 milhões no ano e terminou com R$ 8 milhões de lucro.

8 ÷ 100 = margem líquida de 8%

A leitura: de cada real que entrou pela porta, oito centavos viraram lucro.

Quando engana

O setor manda mais que a gestão. Supermercado trabalha com margem de poucos por cento e isso é normal, porque gira volume. Software trabalha com margens muito maiores, porque a cópia seguinte custa quase nada. Comparar os dois não diz qual empresa é melhor administrada.

Holding distorce o conceito. Uma holding tem receita própria pequena e recebe o lucro das empresas em que tem participação. Esse lucro entra na conta, mas não passou pela receita dela. O resultado é uma margem líquida que pode passar de 100%, o que parece impossível e não é.

Ganho isolado infla. Venda de ativo ou crédito tributário aparecem no lucro daquele ano e somem no seguinte.

As duas margens explicadas por inteiro: a escada que vai da receita até o lucro, o que a distância entre elas revela sobre onde o dinheiro se perde e por que margem líquida acima de 100% pode ser real.

Margem Bruta

O que é. Quanto sobra depois de pagar o custo direto daquilo que foi vendido, antes de qualquer despesa administrativa, juros ou imposto.

Receita menos o custo dos produtos vendidos, dividido pela receita.

Um exemplo. Uma empresa vendeu R$ 100 milhões e gastou R$ 60 milhões para produzir o que vendeu. Sobraram R$ 40 milhões.

40 ÷ 100 = margem bruta de 40%

O que ela mostra que as outras não mostram. Poder de precificação. Uma empresa que consegue vender muito acima do custo tem alguma vantagem: marca, patente, contrato, localização, algo que a protege da concorrência. Margem bruta apertada costuma indicar produto que qualquer um faz igual.

A combinação que ensina mais. Margem bruta alta com margem líquida baixa aponta para onde o dinheiro está indo: o problema não está em produzir, está nas despesas, nos juros ou nos impostos. As duas juntas contam uma história que nenhuma conta sozinha.

Quando engana

Ela não pode passar de 100%. Receita menos custo nunca supera a receita, a não ser que o custo seja negativo, o que não existe. Quando aparece margem bruta acima de 100%, o dado está quebrado. Neste site, esse valor é descartado, e a margem líquida do mesmo período cai junto, porque as duas dividem pela mesma receita.

Nem todo setor calcula igual. Serviço, indústria e comércio classificam custos de formas diferentes, o que torna a comparação entre setores menos confiável do que parece.

Margem bruta e margem líquida lado a lado: por que margem alta não significa negócio melhor, o efeito do giro sobre o retorno e quais números são aritmeticamente impossíveis.

Quanto paga

Quanto do lucro volta em dinheiro para quem é sócio?

Dividend Yield, o retorno em dinheiro

O que é. Quanto a empresa distribuiu em dinheiro aos acionistas ao longo de um ano, comparado ao preço da ação.

Soma dos proventos por ação nos últimos doze meses, dividida pelo preço da ação.

Um exemplo. Uma ação custa R$ 20 e, ao longo do ano, pagou R$ 1,60 entre dividendos e juros sobre capital próprio.

1,60 ÷ 20 = dividend yield de 8%

Quem comprou a ação por R$ 20 recebeu R$ 1,60 em dinheiro, sem precisar vender nada.

A comparação que dá sentido. Assim como o ROE, o dividend yield só significa alguma coisa comparado ao que o mesmo dinheiro renderia em renda fixa. Um retorno de 8% em dividendos é generoso quando o título público paga 5% e é modesto quando o título paga 12%. O mesmo número muda de qualidade conforme os juros do país.

Quando engana

Este é o indicador que mais engana de todos, e por um motivo estrutural.

O denominador é o preço, e o preço cai. Se a ação despenca pela metade e a empresa continua pagando o mesmo, o dividend yield dobra. Nada de bom aconteceu. O indicador subiu porque o mercado perdeu confiança na empresa. Um yield muito acima dos demais merece a pergunta: o numerador subiu ou o denominador caiu?

Dividendo não é promessa. Empresa não é obrigada a manter distribuição. O indicador mede o que já foi pago, não o que será.

Pagar mais do que se lucra não se sustenta. Existe uma verificação simples chamada payout, que é a fração do lucro distribuída. Uma empresa que lucrou R$ 10 milhões e distribuiu R$ 30 milhões pagou três vezes o que ganhou. Esse dinheiro saiu de caixa acumulado, de venda de ativo ou de dívida. Nenhuma dessas fontes se repete indefinidamente.

Devolver capital não é render. Em alguns casos, parte do que é distribuído não é lucro, é o próprio dinheiro do investidor voltando. O yield fica alto e o patrimônio encolhe na mesma proporção.

Quanto aguenta

A empresa resiste a um aperto?

Dividend Yield explicado por inteiro: por que ele olha só para trás, por que um rendimento alto às vezes é má notícia, o que é payout e a diferença entre dividendo e juros sobre capital próprio.

Liquidez Corrente, a folga de curto prazo

O que é. Se a empresa tem, no curto prazo, com que pagar o que deve no curto prazo.

Ativo circulante dividido pelo passivo circulante. Circulante significa aquilo que vira dinheiro, ou que precisa ser pago, dentro de um ano.

Um exemplo. Uma empresa tem R$ 150 milhões entre caixa, contas a receber e estoque. No mesmo período, precisa pagar R$ 100 milhões entre fornecedores, salários e empréstimos que vencem.

150 ÷ 100 = liquidez corrente de 1,5

A leitura: para cada real devido no curto prazo, há R$ 1,50 disponível para pagar.

Abaixo de 1, a empresa deve mais do que tem disponível naquele horizonte, e depende de gerar caixa novo, renegociar prazos ou tomar dinheiro emprestado.

Quando engana

Nem todo ativo circulante paga conta. Estoque entra na conta, mas estoque parado não quita fornecedor. Uma empresa com muito produto encalhado mostra liquidez confortável e aperto real de caixa.

Folga demais também custa. Liquidez muito alta pode significar dinheiro parado que não está sendo investido nem devolvido aos sócios.

Cada modelo de negócio tem seu normal. Varejo recebe do cliente à vista e paga o fornecedor a prazo, o que produz liquidez naturalmente menor sem que isso seja fragilidade. Indústria de ciclo longo precisa de mais folga.

Liquidez corrente explicada por inteiro: por que 1,0 é a fronteira, o que o estoque esconde dentro da conta, as liquidezes seca e imediata, e quando um número baixo é sinal de eficiência.

Índice de Basileia, a solidez de um banco

O que é. Mede quanto capital próprio um banco tem em relação aos riscos que assumiu. É o indicador que responde se a instituição aguenta perdas sem quebrar.

Existe apenas para instituições financeiras. Empresa comum não tem esse índice, e não faria sentido cobrá-lo dela.

Capital do banco dividido pelos ativos ponderados pelo risco.

A expressão "ponderados pelo risco" é o coração da coisa: um título público e um empréstimo sem garantia não pesam igual. O regulador atribui pesos maiores ao que pode não voltar, de modo que dois bancos do mesmo tamanho, com carteiras de risco diferentes, precisam de capitais diferentes.

Um exemplo. Um banco tem R$ 15 bilhões de capital próprio e R$ 100 bilhões em ativos ponderados pelo risco.

15 ÷ 100 = índice de Basileia de 15%

A régua vem do regulador, não do mercado. O acordo internacional que dá nome ao índice estabelece um mínimo, e o Banco Central exige ainda um adicional de conservação acima dele. Um banco abaixo do mínimo não está com pouca folga, está descumprindo exigência.

Quando engana

Alto demais pode ser capital ocioso. Capital parado é capital que não está sendo emprestado, e emprestar é o negócio de um banco.

O dado é trimestral e sai com atraso. O índice reflete o fechamento de um trimestre que já passou. Neste site, a data de referência aparece ao lado do número, porque dado regulatório sem data engana.

Quanto deve e quanto sobra

A empresa está endividada? O lucro dela vira dinheiro?

Os indicadores até aqui respondem quanto a empresa custa, quanto ela rende e quanto ela paga. Falta um pedaço grande da história: quanto ela deve, quanto de dinheiro de verdade sobra e se ela está crescendo ou encolhendo. Esses números aparecem na ficha de cada empresa e nenhum deles entra na nota. Estão ali como informação.

Dívida líquida

O que é. Tudo o que a empresa deve, descontado o dinheiro que ela tem guardado.

Dívida total menos caixa e aplicações financeiras.

Um exemplo. Uma empresa deve R$ 500 milhões e tem R$ 200 milhões em caixa.

500 − 200 = dívida líquida de R$ 300 milhões

Quando o caixa é maior que a dívida, o número fica negativo. Isso se chama caixa líquido, e significa que a empresa poderia quitar tudo o que deve e ainda sobraria dinheiro.

Dívida líquida sobre EBITDA

O que é. Quantos anos de geração de caixa seriam necessários para pagar toda a dívida, mantido o ritmo atual. É a medida de endividamento mais usada no mercado.

Dívida líquida dividida pelo EBITDA do ano.

EBITDA é o resultado da operação antes de juros, impostos e depreciação. Serve aqui como uma aproximação do caixa que a atividade principal produz.

Um exemplo. A mesma empresa, com R$ 300 milhões de dívida líquida, gera R$ 100 milhões de EBITDA por ano.

300 ÷ 100 = 3 vezes

A leitura: mantido esse ritmo, seriam três anos inteiros de geração de caixa só para zerar a dívida, sem investir em nada nem pagar sócio nenhum.

Quando engana

Cada setor tem um normal muito diferente. Concessionária de energia, saneamento e transporte operam endividadas por natureza: o ativo dura décadas e é financiado a prazo longo. Empresa de tecnologia costuma ter quase nenhuma dívida. Comparar o número entre setores diferentes leva à conclusão errada.

O EBITDA não é o dinheiro que sobra. Ele ignora justamente os juros que a dívida cobra e o dinheiro que precisa ser reinvestido. Uma empresa muito intensiva em capital tem EBITDA alto e bem menos caixa livre do que ele sugere.

Dívida sobre patrimônio

O que é. Quanto a empresa deve para cada real de capital próprio.

Dívida total dividida pelo patrimônio líquido.

Mostra quanto da operação é bancada por terceiros em vez de pelos sócios. Serve de complemento, e continua disponível quando o EBITDA não vem.

Não se aplica a bancos. Para um banco, captar dinheiro é a atividade, não o financiamento dela. O indicador que mede solidez de banco é o Índice de Basileia, acima.

Rendimento do caixa livre

O que é. Quanto de dinheiro efetivamente livre a empresa gerou no ano, comparado ao preço de mercado dela inteira.

Fluxo de caixa livre dividido pelo valor de mercado.

Caixa livre é o que sobra depois de pagar as contas e investir o necessário para o negócio continuar funcionando. É a diferença entre dar lucro e gerar dinheiro.

Um exemplo. Uma empresa vale R$ 2 bilhões e, no ano, sobraram R$ 100 milhões depois de tudo.

100 ÷ 2.000 = 5% Quando engana

Um ano diz pouco. A construção de uma fábrica derruba o número, e a venda de um imóvel o infla. Nos dois casos a operação continua a mesma.

Negativo nem sempre é problema. Empresa em expansão consome caixa de propósito, porque está construindo o que vai gerar receita depois.

Caixa gerado pela operação

O que é. Quanto dinheiro a atividade principal produziu no ano, antes de descontar os investimentos.

Ele responde se a operação se sustenta sozinha. E a distância entre ele e o caixa livre mostra o quanto a empresa precisa reinvestir todo ano só para continuar de pé. Uma companhia que gera R$ 4 bilhões na operação e termina com R$ 300 milhões livres está consumindo quase tudo na manutenção do próprio negócio.

Crescimento da receita e do lucro

O que é. Quanto a receita e o lucro variaram em relação ao ano anterior.

Todos os outros indicadores desta página são uma fotografia do presente. Estes dois mostram a direção. Lidos juntos, dizem mais do que separados: lucro subindo mais que a receita costuma indicar margem em expansão, enquanto o contrário sugere custo crescendo mais rápido que as vendas.

Quando engana

Base pequena produz percentual enorme. Uma empresa que lucrou muito pouco no ano passado e voltou ao normal aparece com centenas por cento de crescimento, e isso desaparece no ano seguinte.

Receita pode crescer de vários jeitos. Por preço, por volume ou por aquisição de outra empresa, e as três coisas significam coisas diferentes.

Quando o lucro troca de sinal, a taxa não existe. Não há percentual de crescimento entre um prejuízo e um lucro. Nesse caso o campo fica vazio, em vez de mostrar um número sem sentido.

Os que informam mas não pontuam

Por que alguns números aparecem sem entrar na nota?

Além dos números de dívida, caixa e crescimento da seção anterior, outros três aparecem na ficha de cada empresa e não entram na nota. Vale explicar por quê, porque o motivo ensina algo sobre os outros.

LPA, lucro por ação

É o lucro da empresa dividido pelo número de ações. O problema para efeito de comparação é que ele depende de quantas ações existem, e isso é uma decisão da empresa, não um resultado dela. Um desdobramento que transforma cada ação em duas corta o LPA pela metade sem que nada tenha mudado no negócio. Além disso, o P/L já compara lucro com preço, que é a informação que interessa.

VPA, valor patrimonial por ação

Mesma lógica. Sozinho, o VPA não diz se a ação está cara ou barata, porque falta o preço. Quem faz essa comparação é o P/VP. Pontuar os dois seria contar a mesma informação duas vezes.

CAGR de lucros

É a taxa média de crescimento do lucro ao longo de cinco anos. Não pontua por duas razões: exige série completa, que nem toda empresa tem, e crescimento passado não se projeta em linha reta. Serve como contexto, não como nota.

O que nenhum indicador diz

Onde as contas param e começa o julgamento.

Todos os números desta página têm uma coisa em comum: olham para trás. São o registro do que já aconteceu, publicado em documento oficial.

O preço de uma ação faz o contrário: olha para frente. Ele carrega a expectativa do mercado sobre o que vai acontecer. Quando um indicador parece bom demais ou ruim demais, muitas vezes é porque o mercado já sabe de algo que o balanço ainda não registrou.

Também ficam de fora coisas que nenhuma conta captura: a qualidade de quem administra, a governança, a chegada de um concorrente, uma mudança de regra do setor, uma decisão judicial. Nada disso aparece em indicador nenhum, e tudo isso move empresa.

Por isso os indicadores servem para fazer perguntas melhores, não para dispensar a pergunta. Um número fora do padrão é um convite a investigar aquela empresa, não uma conclusão sobre ela.

No rank do Garimpando Ações todos esses indicadores aparecem juntos, empresa por empresa, e você define o peso que cada um tem na nota final. Se procura os indicadores de fundos imobiliários, veja como ler os indicadores de um fundo imobiliário.