P/L: o que é, como calcular e quando engana
O P/L é o indicador mais citado do mercado e provavelmente o mais mal interpretado. A conta dele cabe em uma linha, mas o número que sai quase nunca significa o que parece significar à primeira vista.
Esta página explica o indicador inteiro: a conta, o que ele responde de verdade, por que ele muda tanto de um setor para outro, e as situações em que ele aponta para o lado errado. Os exemplos usam empresas fictícias e números redondos, de propósito: o que precisa ficar visível é a conta, não o mercado de um dia específico.
A pergunta que ele responde
Quantos anos de lucro atual o mercado está pagando por esta empresa?
Se uma empresa vale R$ 100 milhões e lucra R$ 10 milhões por ano, o mercado está pagando o equivalente a dez anos de lucro. O P/L dela é 10.
Aqui já mora o primeiro mal-entendido. É tentador ler isso como "em dez anos eu recupero o dinheiro", e não é isso. A leitura supõe duas coisas que não acontecem: que o lucro vai ficar exatamente igual para sempre, e que todo ele vai para o bolso de quem tem a ação. Na prática o lucro oscila todo ano, e boa parte dele fica na empresa para pagar dívida e investir.
O que o P/L realmente mede é outra coisa, mais modesta e mais útil: quanto o mercado está disposto a pagar hoje por cada real de lucro que a empresa produz. É um preço, não um prazo.
A conta, por dois caminhos
Um exemplo. Uma empresa fictícia tem 50 milhões de ações negociadas a R$ 8,00 cada. No último ano, ela lucrou R$ 40 milhões.
Pelo caminho da empresa inteira, o valor de mercado é 50 milhões de ações vezes R$ 8,00, ou seja R$ 400 milhões:
400 ÷ 40 = P/L de 10Pelo caminho da ação, o lucro por ação é R$ 40 milhões divididos por 50 milhões de ações, ou seja R$ 0,80 por ação:
8,00 ÷ 0,80 = P/L de 10Os dois caminhos precisam dar o mesmo número. Quando não dão, algum dos dados está errado, e normalmente é a quantidade de ações, que muda com desdobramento, grupamento ou emissão. Essa conferência é simples e resolve boa parte dos números estranhos que aparecem por aí.
O que é P/L alto e o que é P/L baixo
Existe um número certo? Não, e essa é a parte importante.
Não há um valor universal que separe caro de barato. O que existe é comparação, e comparação exige contexto. Pior: o mesmo número admite duas leituras opostas.
Um P/L baixo pode significar que a empresa está barata. Mas pode significar também que o mercado espera que o lucro caia, e por isso não paga mais do que aquilo. Nesse segundo caso, o indicador está baixo porque o lucro de amanhã não deve ser o de hoje.
Um P/L alto tem a mesma ambiguidade. Pode ser preço esticado, e pode ser uma empresa cujo lucro cresce rápido, onde quem compra está pagando pelo lucro futuro em vez do atual.
O indicador sozinho não distingue os dois casos. Ele mostra o preço, e o motivo do preço fica do lado de fora da conta.
Por que ele muda tanto entre setores
Empresas de setores com lucro previsível e crescimento lento, como energia elétrica e saneamento, costumam negociar com P/L mais baixo. O lucro delas é estável e razoavelmente previsível, então o mercado paga um múltiplo menor por ele.
Empresas de setores que crescem rápido costumam negociar com P/L mais alto, porque o preço embute uma expectativa de lucro maior lá na frente. Quem compra não está pagando pelo lucro do ano passado, está pagando por uma projeção.
Há ainda os setores cíclicos, como siderurgia, mineração e petróleo, onde o lucro sobe e desce junto com o preço de uma commodity. Neles o indicador engana de um jeito bem específico, descrito mais adiante.
A regra prática que sobrevive: o P/L compara bem empresas do mesmo setor e compara mal empresas de setores diferentes. Confrontar o P/L de uma distribuidora de energia com o de uma empresa de software não compara duas empresas, compara duas expectativas.
Quando a empresa tem prejuízo
Se o lucro é negativo, a divisão continua funcionando e produz um P/L negativo. Só que "pagar menos cinco anos de lucro" não quer dizer nada. O indicador deixa de ser informativo no exato momento em que o denominador troca de sinal.
Por isso, neste site, empresa com prejuízo aparece sem P/L, e não com um P/L ruim. A diferença importa: um campo vazio significa "esta conta não se aplica aqui", enquanto uma nota baixa significaria "foi avaliada e foi mal".
O P/L contra a história da própria empresa
Comparar com outras empresas é o uso mais comum, mas existe uma comparação melhor e bem menos lembrada: a empresa contra ela mesma.
Uma companhia que costuma negociar perto de 12 e hoje está em 7 conta uma história. A mesma companhia em 20 conta outra. Em nenhum dos dois casos o número diz o que vai acontecer, mas ele situa o preço atual dentro do que aquele mercado costuma pagar por aquele negócio.
É por isso que a ficha de cada empresa neste site mostra o P/L por exercício num gráfico, e não apenas o número de hoje.
O lucro do denominador pode não se repetir
O P/L usa o lucro dos últimos doze meses. Se dentro desse período a empresa vendeu um imóvel, ganhou uma disputa judicial antiga ou registrou um ganho contábil que não vai acontecer de novo, o lucro fica inflado. E um denominador inflado produz um P/L artificialmente baixo.
Esse é, de longe, o caso mais comum de "P/L baixo demais para ser verdade". A conferência é simples: olhar o lucro dos anos anteriores. Se o do último ano destoa muito dos demais, o número provavelmente carrega alguma coisa que não se repete.
A situação espelhada também existe. Empresa que teve um ano ruim por um evento pontual mostra P/L altíssimo, sem que o negócio tenha piorado de forma permanente.
O que ele não enxerga: a dívida
Esta é a limitação mais séria do indicador. Duas empresas com o mesmo P/L podem ser muito diferentes se uma delas dever muito e a outra não.
O P/L olha o que sobra para quem tem a ação, depois de todas as contas pagas. Ele não mostra quanto a empresa deve, nem quanto dessa dívida vence no ano que vem. Uma companhia endividada pode exibir um P/L convidativo justamente porque o mercado desconta o risco da dívida no preço.
É para cobrir esse ponto cego que existem outros indicadores. O EV/EBIT faz uma conta parecida, mas somando a dívida ao preço, e a dívida líquida sobre EBITDA mede o endividamento de forma direta. Os dois estão explicados em como ler os indicadores de uma ação.
P/L e taxa de juros
Por que o mesmo P/L significa coisas diferentes em épocas diferentes?
Este ponto pesa bastante no Brasil, e costuma passar despercebido.
Quando a taxa básica de juros está alta, é possível obter rendimento relevante sem correr risco nenhum. Isso torna qualquer ação comparativamente menos atraente, e o mercado inteiro passa a pagar múltiplos menores. Quando o juro cai, acontece o contrário: a renda fixa rende menos e o mesmo lucro empresarial passa a valer mais.
Na prática, isso significa que um P/L de 8 não quer dizer a mesma coisa com o juro básico em 6% ao ano ou em 14% ao ano. O número é o mesmo, o contexto é outro.
É por essa razão que este site mostra a taxa básica e a inflação no alto da página, ao lado do rank. A régua dos indicadores é fixa, e quem faz a leitura do cenário é quem está lendo.
Como este site usa o P/L
O P/L é um dos indicadores que compõem o Grau de Oportunidade. A régua é simples e sempre a mesma: quanto menor o P/L, mais pontos, dentro de uma faixa definida. A premissa por trás disso é que pagar menos por cada real de lucro tende a ser melhor do que pagar mais.
Duas situações ficam de fora da nota. Empresa com prejuízo não recebe nota neste indicador, pelo motivo já explicado. E valores muito acima do que se observa no mercado também são descartados, porque a essa altura o número deixou de descrever a empresa.
O peso do P/L dentro do Grau é você quem define, no painel de critérios. Quem dá mais importância a preço aumenta o peso dele; quem prefere olhar rentabilidade reduz. A página da metodologia mostra a fórmula completa.
Quando engana, em resumo
Quando enganaLucro que não se repete. Venda de ativo, ganho judicial ou efeito contábil pontual inflam o lucro do ano e derrubam o P/L sem que o negócio tenha mudado.
Comparação entre setores diferentes. Um múltiplo baixo pode ser apenas o normal daquele setor, e um alto pode ser o normal de outro.
A dívida fica invisível. O indicador não mostra o que a empresa deve, e duas empresas com o mesmo P/L podem carregar riscos bem diferentes.
Empresa cíclica no topo do ciclo. Em siderurgia, mineração e petróleo o lucro acompanha o preço de uma commodity. No auge do ciclo o lucro é recorde e o P/L parece baixíssimo, justamente quando o mercado já espera que aquele lucro caia. Nesses setores, P/L muito baixo às vezes é sinal de topo, e não de barganha.
P/L baixo por um motivo ruim. Processo relevante, perda de um contrato grande ou dúvida sobre a continuidade do negócio derrubam o preço, e o indicador registra isso como se fosse desconto.
O que ele não diz. O P/L descreve o preço de um lucro que já aconteceu. Ele não sabe se aquele lucro vai se repetir, não conhece a dívida, não lê o contrato que vence no ano que vem e não faz ideia do que o mercado já antecipou. É um bom ponto de partida para uma pergunta e um péssimo ponto final para uma decisão.
Este é um dos indicadores usados no rank do Garimpando Ações. Os demais estão explicados em como ler os indicadores de uma ação, e a conta que transforma todos eles numa nota única está na metodologia.