Garimpando Ações

Como o Grau de Oportunidade é calculado

Todo ranking precisa responder uma pergunta incômoda: quem decidiu que esta ação é melhor que aquela, ou que este fundo vale mais que o outro? Aqui a resposta é: você, em boa parte.

Esta página explica exatamente como o número de 0 a 100 aparece, quais decisões são nossas, quais são suas, e o que o resultado não consegue dizer.

Não há opinião no meio do caminho. As regras são fixas, escritas antes de olhar para qualquer empresa ou fundo, e valem igualmente para todos.

Uma nota antes de começar. O site tem dois ranks, o de ações e o de fundos imobiliários. A conta explicada aqui é exatamente a mesma nos dois. O que muda é apenas a lista de indicadores, porque uma empresa e um fundo não se medem pelas mesmas coisas. Quais são eles, e o que cada um significa, está nas páginas de indicadores de ações e de indicadores de fundos.

Primeiro passo: cada indicador vira uma nota

Como coisas de unidades diferentes passam a ser comparáveis.

O site não compara P/L com P/L, vacância com vacância, e depois tenta somar coisas de unidades diferentes. Seria como somar quilos com metros.

Em vez disso, cada indicador é traduzido para uma nota de 0 a 100, sempre pela mesma régua.

Um exemplo com números redondos. Suponha uma régua de P/L assim:

P/L da empresaNota
até 5100
de 5 a 1075
de 10 a 1550
de 15 a 2025
acima de 200

Uma empresa com P/L de 8 recebe nota 75 nesse indicador. Outra com P/L de 18 recebe 25.

As réguas de verdade têm mais degraus, e cada indicador tem a sua. Um mesmo indicador pode até ter réguas diferentes nos dois mercados, quando o valor típico de uma empresa e o de um fundo não se parecem. Mas o mecanismo é sempre esse: valor bruto entra, nota de 0 a 100 sai.

Onde está o julgamento

Decidir que P/L 8 vale mais que P/L 18 embute uma premissa: mais barato é melhor. Essa premissa é nossa e está declarada. As faixas foram calibradas olhando como os valores se distribuem de verdade no mercado brasileiro, para que a régua separe os papéis em vez de dar nota cheia para quase todos.

Você vê a nota de cada indicador ao abrir qualquer ação ou fundo, ao lado do valor.

Segundo passo: o peso é seu

Por que dois ranks diferentes podem estar os dois certos.

Duas pessoas podem olhar o mesmo papel e ordená-lo de formas diferentes, e as duas estarem certas. Quem vive de renda quer distribuição. Quem tem trinta anos pela frente quer crescimento. Quem já perdeu dinheiro com empresa endividada quer solidez acima de tudo.

Um ranking que fixa os pesos escolhe por todo mundo e finge que existe uma resposta só.

No painel Meus critérios, você dá a cada indicador um peso de 0 a 10. Peso 0 desliga o indicador por completo. O painel troca sozinho quando você muda de mercado, mostrando os indicadores daquele rank.

Grau = soma de (nota × peso) dividida pela soma dos pesos.

Um exemplo com três indicadores só, para a conta caber na cabeça. Uma empresa tirou nota 100 em P/L, 50 em ROE e 0 em dividendos. Você deu peso 10 para P/L, 5 para ROE e 5 para dividendos.

em cima: (100 × 10) + (50 × 5) + (0 × 5) = 1.250 embaixo: 10 + 5 + 5 = 20 1.250 ÷ 20 = Grau 62,5

Num fundo a conta é idêntica, trocando os indicadores pelos de fundo.

Por que dividir pela soma dos pesos importa

É isso que garante que o máximo seja sempre 100, não importa quantos indicadores você ligue nem que pesos escolha. Sem essa divisão, quem desse peso alto a muitos indicadores teria notas infladas, e comparar duas configurações seria impossível.

E é isso que permite dizer que a escala significa sempre a mesma coisa: 100 é “tirou nota máxima em tudo que você considera importante”, com os seus critérios ou com os de qualquer outra pessoa.

Os pesos ficam guardados no seu navegador, separados por mercado. Ao voltar, os dois ranks estão do seu jeito. Se quiser recomeçar, há um botão para restaurar o padrão, e perfis prontos para quem prefere um ponto de partida.

Terceiro passo: o que fazer quando falta dado

A parte menos óbvia da metodologia, e a que mais muda o resultado.

Nem toda empresa e nem todo fundo têm todos os indicadores. Às vezes a fonte não publicou, às vezes o indicador simplesmente não faz sentido para aquele tipo de papel.

Indicador sem dado sai dos dois lados da conta: não entra em cima, como nota zero, e não entra embaixo, no total de pesos.

Por que isso importa tanto. Se um indicador ausente virasse nota zero, o site estaria medindo a fonte de dados, não a empresa. Um papel perfeitamente saudável cairia no rank por causa de um campo que ninguém preencheu. Seria injustiça disfarçada de rigor.

Ausência não é o mesmo que zero

Vale insistir nesse ponto porque a confusão é fácil.

Zero é dado de verdade e pontua como zero. Uma empresa que não distribuiu nada aos acionistas tem dividend yield zero, e deve mesmo perder pontos ali. Isso é informação.

Ausência é não sabermos. É um campo vazio, e vazio não vira nota nenhuma.

Três situações diferentes, não duas

Quando um indicador não aparece para um papel, existem três motivos possíveis, e o site trata cada um de um jeito.

1. A fonte não entrega para ninguém. Se um indicador vem vazio para todos os papéis do mercado, ele sai da conta de cobertura também. Ninguém pode ser cobrado por algo que a fonte não fornece a papel nenhum. Essa lista é recalculada a cada atualização: se a fonte passar a entregar, o indicador volta a valer sozinho, sem ninguém mexer em nada.

2. Não se aplica a este papel. Aqui está o caso mais interessante, e ele exige conhecer o negócio.

O Índice de Basileia mede a folga de capital de um banco. Uma rede de varejo não tem esse índice, e não é pior por isso. Cobrá-la seria como avaliar um restaurante pela quilometragem.

O contrário também vale. A liquidez corrente compara o que a empresa tem a receber no curto prazo com o que tem a pagar. O balanço de um banco não separa curto e longo prazo como o de uma indústria, porque captar dinheiro é a matéria-prima do negócio dele, não o financiamento dele. Nos bancos esse indicador sai da conta, e quem mede solidez ali é a Basileia.

Nos fundos acontece o mesmo com vacância e inadimplência: um fundo de papel não tem imóvel para ficar vago nem inquilino para atrasar. Ele não é avaliado nesses dois, e não perde nada por isso.

Repare que é sempre o mesmo raciocínio: um único conceito, servindo aos dois lados. Reconhecer que um papel é um banco liga a Basileia e desliga a liquidez corrente na mesma decisão.

3. Faltou o dado mesmo. O papel deveria ter aquele indicador, e a fonte não trouxe. Aqui o indicador continua saindo da nota, mas conta contra a cobertura, que é o assunto a seguir.

A salvaguarda: sem cobertura mínima, não entra no rank

O que impede um papel quase desconhecido de liderar a lista.

A regra de tirar o ausente dos dois lados tem um efeito colateral perigoso se ficar sozinha.

Imagine um papel do qual só se sabe uma coisa, e essa coisa é boa. Ele tiraria nota 100 nesse único indicador, e como todo o resto sairia da conta, o Grau dele seria 100. Ele lideraria o rank sabendo-se quase nada sobre ele.

Isso não é um ranking, é um sorteio premiando a ignorância.

Por isso existe a cobertura mínima de 60%. Só entra na ordenação o papel do qual se conhece pelo menos 60% do peso que você distribuiu. Abaixo disso ele aparece marcado e fica fora do rank. Não é escondido nem apagado: você continua encontrando, abrindo e vendo o que se sabe dele.

A cobertura é medida contra os seus pesos, e isso é coerente com o resto. Se você desligou um indicador, ele deixa de contar também para a cobertura. O que se está perguntando é: do que importa para você, quanto se sabe deste papel?

Número que não faz sentido é descartado

Quando o dado da fonte contradiz a aritmética ou a realidade.

Dado de mercado vem torto com mais frequência do que se imagina. Campo trocado, valor fora de escala, informação preenchida ao contrário por quem entregou o formulário.

A regra aqui é curta: nulo é melhor que errado. Quando um valor é impossível ou absurdo, ele vira ausência em vez de virar nota.

Alguns exemplos do tipo de coisa que é recusada:

Impossibilidade aritmética. Margem bruta acima de 100% não existe: receita menos custo nunca passa da receita. Se aparecer, o número está quebrado.

Valor fora de qualquer escala plausível. Um rendimento anual de 80% quase nunca é rendimento. Costuma ser devolução de capital contada junto, ou erro de preenchimento.

Contradição interna. Um fundo com catorze shoppings declarando 90% de área vazia não está descrevendo a realidade dele. Um único imóvel vago em um fundo pequeno é plausível; catorze ao mesmo tempo, não.

Sinal invertido por matemática. Uma empresa com patrimônio líquido negativo produz um ROE positivo quando dá prejuízo, porque dois números negativos se dividem em positivo. Sem tratamento, a empresa mais quebrada da bolsa apareceria como a mais rentável.

Em todos esses casos o indicador é descartado e sai dos dois lados da conta. Quando isso acontece, o card daquele indicador diz que aconteceu, em vez de mostrar um espaço vazio sem explicação.

O custo dessa escolha é real e assumido: de vez em quando o site perde um indicador que talvez estivesse certo. Preferimos avaliar um papel com uma informação a menos do que ordenar o rank inteiro com um número inventado.

Empate, e o que significam Diamante, Ouro e Prata

Como a lista se desempata e o que os selos acrescentam.

Quando dois papéis empatam no Grau, vence quem negocia mais. O desempate é a liquidez média diária.

Não é um critério de qualidade, é de praticidade: entre dois papéis igualmente bem avaliados, aquele que tem mais negócio é mais fácil de comprar sem empurrar o preço e de vender quando você quiser. E é um critério objetivo, que não depende de preferência de ninguém.

Os tiers são faixas do mesmo número de 0 a 100:

FaixaTier
85 ou maisDiamante
de 70 a 85Ouro
de 55 a 70Prata
de 40 a 55Bronze
abaixo de 40Cascalho

Eles não acrescentam informação nenhuma ao Grau. Servem para dar noção de escala rapidamente, do mesmo jeito que dizer “quinze graus” e “frio” descrevem a mesma temperatura.

E aqui vale a observação que mais surpreende: como os pesos são seus, o tier também é seu. O mesmo papel pode ser Diamante para uma pessoa e Prata para outra, sem que nenhuma das duas esteja errada. Elas estão perguntando coisas diferentes.

Se você comparar o seu rank com o de outra pessoa e os dois forem diferentes, o site está funcionando exatamente como deveria.

De onde vêm os dados

Quem publica, com que frequência, e o que isso limita.

O site não produz informação, ele consolida informação pública de quatro fontes:

FonteO que fornece
brapi.devCotações e indicadores fundamentalistas das ações
CVMInformes mensais dos fundos e documentos oficiais das companhias
Banco CentralÍndice de Basileia dos bancos
B3Classificação setorial oficial das empresas

Um robô busca tudo isso automaticamente todo dia útil e reconstrói a base. A data da última atualização aparece no topo da página inicial, e vale conferir: se ela estiver velha, o rank está velho junto.

As cotações têm atraso. Este não é um site de tempo real e não serve para acompanhar pregão.

E vale ser franco sobre o limite disso: conseguimos recusar o número absurdo, não o número plausível. Se uma fonte publicar um valor errado que pareça razoável, ele entra na conta como qualquer outro.

O que o Grau não sabe

Onde a conta termina e começa o seu trabalho.

Esta é a parte mais importante da página, e é por isso que ela fecha o texto.

Todo indicador descreve o passado. Balanço é retrato de algo que já aconteceu. O Grau organiza esse retrato de forma comparável, e nada mais que isso. Ele não prevê o futuro e não tem como.

Ele não lê nada além de números. Não conhece a qualidade da gestão, não sabe quem controla a empresa, não sabe se o contrato de aluguel do fundo vence ano que vem, não leu o relatório em que a administradora explica o que pretende fazer.

Ele não sabe por que o papel está barato. Preço baixo aparece como nota alta em quase todo indicador de valor. Às vezes é oportunidade, às vezes é o mercado antecipando um problema que ainda não chegou ao balanço. O indicador não distingue os dois casos, e essa é uma limitação séria de qualquer ranking quantitativo, não só deste.

Ele não conhece você. Não sabe seu prazo, sua tolerância a oscilação, quanto você já tem daquele setor. Um papel excelente pode ser péssimo para alguém que já está concentrado demais nele, e o rank não tem como perceber isso.

As réguas são absolutas, e isso embute um cenário de juros. Um rendimento de 11% ao ano é excelente quando a taxa básica está em 6% e apenas razoável quando ela está em 14%. As faixas de pontuação não sabem qual é a taxa hoje.

É exatamente por isso que o site mostra Selic, IPCA, dólar e Ibovespa no alto da página: para que você faça a comparação que a régua não faz.

Por isso a leitura correta de uma nota alta é: esta é uma boa pergunta para investigar, não “esta é uma boa compra”. O rank serve para reduzir centenas de papéis a uma lista curta que merece sua atenção. A decisão continua sendo sua, e depois dela vem a leitura dos documentos, que nenhum número substitui.

Para ver a metodologia funcionando, volte ao rank e mexa nos pesos: a ordem se refaz na hora. Se quiser entender o que cada indicador significa, veja os indicadores de ações e os indicadores de fundos.