Liquidez corrente: o que é, como calcular e quando engana
A liquidez corrente é o indicador mais simples da lista e o que mais depende do tipo de negócio para ser lido. Ela compara o que entra no próximo ano com o que vence no próximo ano, e tanto um valor baixo quanto um valor alto podem ser boa ou má notícia.
Esta página explica a conta, por que o número 1,0 é a fronteira que importa, o que o estoque esconde dentro dela e em que setores uma liquidez baixa é sinal de eficiência e não de aperto. Os exemplos usam empresas fictícias e números redondos, de propósito: o que precisa ficar visível é a conta, não o mercado de um dia específico.
A pergunta que ela responde
Se tudo que a empresa deve nos próximos doze meses vencesse, o que ela tem para receber e transformar em dinheiro no mesmo prazo seria suficiente?
É uma pergunta de fôlego de curto prazo, não de saúde geral. Uma empresa pode ser muito lucrativa e passar aperto por ter concentrado vencimentos, e pode ser medíocre e dormir tranquila por ter alongado tudo. A liquidez corrente olha só esse recorte de um ano.
Vale a distinção que evita o mal-entendido mais comum: lucro e caixa não são a mesma coisa. Uma venda parcelada em doze vezes vira lucro no ato e vira dinheiro aos poucos. Uma empresa pode fechar o ano com lucro recorde e não ter como pagar o fornecedor em março, e é justamente esse descompasso que este indicador tenta capturar.
O que quer dizer circulante
O balanço separa tudo em dois blocos pelo prazo de doze meses.
Ativo circulante é o que a empresa tem e espera transformar em dinheiro dentro de um ano: o caixa e as aplicações de liquidez imediata, as contas a receber de clientes, o estoque e algumas despesas já pagas antecipadamente.
Passivo circulante é o que ela deve e precisa pagar dentro de um ano: fornecedores, salários e encargos, impostos, a parcela dos empréstimos que vence nesse prazo e os dividendos já declarados.
O que passa de doze meses fica nos blocos não circulantes e não entra nesta conta. É por isso que uma empresa pode ter uma dívida gigantesca e uma liquidez corrente confortável: se o vencimento é daqui a oito anos, ele não aparece aqui.
A conta, com um exemplo
Uma empresa fictícia tem, no encerramento do ano, R$ 180 milhões de ativo circulante e R$ 120 milhões de passivo circulante:
180 ÷ 120 = liquidez corrente de 1,50A leitura direta é que ela tem R$ 1,50 a receber ou realizar para cada R$ 1,00 que vence no mesmo período. Repare que o resultado é uma razão, não um percentual: 1,50 quer dizer uma vez e meia, e não 1,5%.
Por que 1,0 é a fronteira
Este é o único indicador da lista cujo limiar relevante não é uma escolha de calibragem, é o próprio conceito.
Acima de 1,0, o que a empresa tem para realizar no ano cobre o que ela precisa pagar no ano. Abaixo de 1,0, não cobre, e a diferença precisa sair de algum lugar: de dinheiro novo entrando pela operação, de uma renegociação de prazo, de um empréstimo novo ou da venda de algum ativo de longo prazo.
Estar abaixo de 1,0 não significa que a empresa vai quebrar. Significa que ela depende de algo além do que já está no balanço para atravessar o ano, e vale entender o que é esse algo. Em muitos casos é simplesmente a geração de caixa do próprio negócio, que é recorrente e previsível.
Uma folga muito acima de 1,0 não é proporcionalmente melhor. A diferença entre 0,9 e 1,1 é conceitualmente grande, porque atravessa a fronteira. A diferença entre 2,5 e 3,5 diz muito menos, e a seção sobre liquidez alta explica por quê.
O estoque é o ponto fraco do indicador
Aqui está a principal fragilidade da conta. O ativo circulante inclui o estoque, e estoque não é dinheiro: é mercadoria que talvez vire dinheiro, pelo valor que está registrado no balanço, dentro do prazo esperado.
Duas empresas fictícias têm a mesma liquidez corrente de 1,50, com R$ 180 milhões de ativo circulante e R$ 120 milhões de passivo circulante. A composição é diferente:
Primeira: caixa e recebíveis 150 · estoque 30 Segunda: caixa e recebíveis 40 · estoque 140A primeira tem quase tudo já em dinheiro ou perto disso. A segunda depende de vender um estoque enorme, no preço em que ele está registrado, para honrar os compromissos. Se aquela mercadoria for moda da estação passada, componente eletrônico defasado ou imóvel em uma região que esfriou, o valor real é bem menor do que o do balanço.
Essa é a razão de existirem outras duas medidas, mais apertadas, que formam uma escada:
Liquidez seca repete a mesma conta tirando o estoque do numerador. Ela pergunta se a empresa se vira sem precisar vender mercadoria nenhuma. Na segunda empresa do exemplo ela seria 40 ÷ 120, ou seja 0,33, um retrato muito diferente do 1,50.
Liquidez imediata aperta mais ainda e considera só caixa e aplicações de resgate imediato. É a pergunta de quanto dá para pagar hoje, sem depender de cliente nenhum.
As três descem em rigor e a distância entre elas descreve a qualidade do ativo circulante. Um negócio cuja liquidez corrente é confortável e cuja liquidez seca é apertada está apoiado em estoque, e aí a pergunta seguinte deixa de ser sobre o indicador e passa a ser sobre a mercadoria.
Conta a receber também não é dinheiro
O estoque leva a fama, mas as contas a receber têm um problema parecido e mais discreto. Um cliente que comprou e não pagou continua registrado como ativo circulante até que a empresa reconheça que ele não vai pagar.
Empresas que vendem muito a prazo, ou que concentram vendas em poucos clientes grandes, carregam um risco aí que a liquidez corrente não enxerga. Um sinal que costuma acompanhar o problema é a conta a receber crescer bem mais rápido que a receita: significa que a empresa está vendendo em condições mais frouxas, ou que a cobrança está atrasando.
Liquidez alta demais também informa
É tentador ler o indicador como "quanto maior, melhor", e ele não funciona assim depois de certo ponto.
Ativo circulante é dinheiro parado em alguma forma: caixa sem aplicação relevante, estoque acumulado, cliente demorando a pagar. Uma liquidez corrente muito acima da média do setor pode significar estoque encalhado, cobrança ineficiente ou capital ocioso que poderia estar rendendo ou sendo investido no negócio.
É a mesma forma de raciocínio que aparece no percentual em caixa dos fundos imobiliários, explicada na página de indicadores de FII: existe um meio termo confortável, e os dois extremos contam histórias diferentes. A diferença é que, nas ações, este site pontua a liquidez corrente de forma crescente, e o ponto de atenção sobre excesso fica por conta de quem lê.
Quando liquidez baixa é sinal de eficiência
Este é o caso que mais inverte a leitura ingênua do indicador, e ele é comum.
Um supermercado recebe do cliente à vista ou no cartão em poucos dias, e paga o fornecedor em sessenta. Ou seja: ele vende a mercadoria e embolsa o dinheiro antes de precisar pagar por ela. O fornecedor está, na prática, financiando a operação de graça.
No balanço isso aparece como um passivo circulante inchado, cheio de contas a pagar, ao lado de um ativo circulante modesto, porque o dinheiro entrou e já foi usado. A liquidez corrente resultante é baixa, às vezes abaixo de 1,0, e isso é a assinatura de um negócio eficiente, não de um negócio em dificuldade.
O nome disso é ciclo de caixa negativo, e aparece em varejo alimentar, comércio eletrônico, companhias aéreas que vendem passagem antecipada e assinaturas pagas adiantado. Nesses setores, a comparação que faz sentido é com os concorrentes diretos, nunca com a régua geral do mercado.
O oposto também existe. Construtoras e incorporadoras carregam estoque de longa maturação e costumam exibir liquidez corrente alta sem que isso signifique folga, porque aquele ativo demora a virar dinheiro.
Por que ela não se aplica a bancos
O balanço de uma instituição financeira não separa circulante e não circulante como o de uma indústria, e o motivo é o mesmo que tira o ROIC dos bancos: captar dinheiro é a operação, não o financiamento dela.
O depósito do cliente é um passivo que pode ser sacado a qualquer momento, e o empréstimo concedido é um ativo com prazo. Essa assimetria é o negócio em si, administrada com regras próprias do regulador. A razão entre os dois blocos fica colada perto de 1 por construção, e as pequenas variações entre uma instituição e outra não descrevem solidez nenhuma.
Quem mede solidez de banco é o Índice de Basileia, que compara o capital próprio da instituição com o risco que ela assumiu, e que só existe para bancos exatamente pelo mesmo motivo pelo qual a liquidez corrente não serve para eles.
Como este site usa a liquidez corrente
A liquidez corrente é um dos indicadores pontuados no rank de ações, na régua de "quanto aguenta". A faixa começa em 1,0, e essa escolha é deliberada: é o limiar que significa alguma coisa no conceito. Acima dele a empresa cobre o que deve no curto prazo, abaixo não cobre, e abaixo de 1,0 o indicador não pontua.
Para os bancos o indicador sai da conta por completo, pelo motivo da seção anterior. Ele não vira zero, que seria dizer que o banco foi mal avaliado: ele sai dos dois lados da média, de modo que a instituição não é premiada nem punida por um número que não descreve o negócio dela. É o mesmo tratamento que o ROIC recebe em bancos e que o Índice de Basileia recebe em qualquer empresa que não seja banco.
A liquidez seca e a liquidez imediata não estão no rank hoje. Elas dependem da abertura do estoque e do caixa dentro do ativo circulante, que nem toda fonte entrega de forma consistente. Ficam registradas aqui porque são a leitura natural seguinte para quem quiser ir além do número que o rank mostra, consultando o balanço da empresa.
Quando engana, em resumo
Quando enganaEstoque de má qualidade. Mercadoria encalhada ou registrada acima do valor real infla o numerador sem que exista dinheiro por trás.
Cliente que não vai pagar. Conta a receber continua como ativo circulante até ser reconhecida como perda, e até lá sustenta um indicador otimista.
Ciclo de caixa negativo. Varejo e assinaturas exibem liquidez baixa justamente por receberem antes de pagar, que é sinal de eficiência e não de aperto.
Folga que é capital parado. Liquidez muito acima do setor pode ser estoque acumulado, cobrança lenta ou dinheiro ocioso.
Dívida longa invisível. O indicador só olha doze meses, então uma empresa muito endividada com vencimentos distantes aparece confortável.
Retrato de uma data só. O balanço é fechado em um dia específico, e uma empresa sazonal medida logo depois do pico do ano mostra um número que não representa a média dela.
Comparação entre setores. Supermercado, construtora e indústria operam em patamares naturalmente diferentes, sem que isso classifique nenhum dos três.
O que ela não diz. A liquidez corrente compara dois blocos do balanço em uma data, sem olhar a qualidade do que está dentro deles. Ela não sabe se o estoque vende, se o cliente paga, se o vencimento pode ser renegociado nem quanto a operação gera de caixa por mês. É um sinal de fôlego de curto prazo, e um sinal que precisa ser lido junto do setor em que a empresa opera.
Este é um dos indicadores usados no rank do Garimpando Ações. Os demais estão explicados em como ler os indicadores de uma ação, e a conta que transforma todos eles numa nota única está na metodologia.