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ROE: o que é, como calcular e quando engana

O ROE mede quanto lucro uma empresa produz com o capital dos próprios sócios. É o indicador de rentabilidade mais citado, e o mais fácil de inflar sem que a empresa tenha ficado melhor.

Esta página explica o indicador inteiro: a conta, com o que comparar o resultado, por que dívida infla o número, o que acontece quando o patrimônio encolhe e a diferença entre ROE e ROIC, que é a distinção que separa eficiência real de aparência. Os exemplos usam empresas fictícias e números redondos.

A pergunta que ele responde

Quanto lucro esta empresa produz com o dinheiro dos sócios?

O patrimônio líquido é o capital que pertence a quem tem as ações: o que a empresa possui menos o que ela deve. O ROE, sigla de retorno sobre o patrimônio líquido, mede quanto de lucro esse capital gera em um ano.

Um ROE de 20% significa que, para cada R$ 100 de patrimônio, a empresa produziu R$ 20 de lucro no período. É a medida mais direta de eficiência do capital: duas empresas com o mesmo patrimônio e ROE diferente estão fazendo coisas muito diferentes com o mesmo dinheiro.

A conta, com exemplo

Lucro líquido do ano dividido pelo patrimônio líquido, multiplicado por 100 para virar porcentagem.

Um exemplo. Uma empresa fictícia tem patrimônio líquido de R$ 500 milhões e lucrou R$ 75 milhões no ano.

75 ÷ 500 = 0,15 → ROE de 15%

A leitura: cada R$ 100 de capital dos sócios produziu R$ 15 de lucro naquele ano.

Existe um segundo caminho para o mesmo número: lucro por ação dividido pelo valor patrimonial por ação. Como os dois se referem à mesma empresa, o resultado tem que bater. Quando não bate, algum dos dados está errado, e essa conferência é usada neste site para descartar ROE que não se sustenta.

Com o que comparar o resultado

Um ROE isolado diz pouco. Ele precisa de duas comparações.

A primeira é com o custo de oportunidade. Se um título público paga 12% ao ano sem risco, uma empresa que entrega ROE de 8% está produzindo menos retorno sobre o capital dela do que o dinheiro renderia parado. Isso não condena a empresa, porque parte do retorno de quem investe vem da valorização e não do lucro do ano, mas coloca o número em perspectiva.

A segunda é com as empresas do mesmo setor. Setores intensivos em capital, como energia e saneamento, operam com ROE naturalmente menor: eles exigem muito patrimônio para funcionar. Serviços e tecnologia, que precisam de pouco ativo, operam com ROE maior. Comparar entre setores compara estruturas, não competência.

ROE alto por dívida, não por eficiência

Por que duas empresas igualmente boas podem ter ROE muito diferente?

Esta é a limitação mais importante do indicador, e ela não é óbvia.

O ROE divide o lucro pelo patrimônio, e patrimônio é só uma parte do dinheiro que a empresa usa. A outra parte é dívida. Uma companhia pode financiar a operação com capital próprio ou com dinheiro de terceiros, e o ROE só enxerga a primeira.

Duas empresas fictícias operam o mesmo negócio e geram os mesmos R$ 30 milhões de lucro por ano. A diferença está em como cada uma se financia:

A primeira tem R$ 300 milhões de patrimônio e nenhuma dívida:

30 ÷ 300 = ROE de 10%

A segunda tem R$ 100 milhões de patrimônio e R$ 200 milhões de dívida:

30 ÷ 100 = ROE de 30%

O ROE da segunda é três vezes maior, e ela não é três vezes melhor. Ela apenas usa mais dinheiro emprestado. Alavancagem aumenta o ROE nos anos bons e amplifica o estrago nos anos ruins, porque a dívida continua cobrando juros independentemente do resultado.

A conferência que resolve: olhar o endividamento ao lado do ROE. Um ROE alto numa empresa com pouca dívida diz uma coisa; o mesmo ROE numa empresa muito endividada diz outra. A ficha de cada empresa neste site mostra a dívida líquida sobre EBITDA logo abaixo dos indicadores com nota.

Patrimônio pequeno infla o número

Como o patrimônio está no denominador, tudo o que o encolhe empurra o ROE para cima sem que a operação tenha melhorado.

Isso acontece de formas comuns e legítimas. Uma empresa que recompra as próprias ações reduz o patrimônio. Uma empresa que distribui quase todo o lucro acumula menos capital ao longo do tempo. E uma empresa que passou por anos de prejuízo tem o patrimônio corroído pelo acumulado.

Nos três casos o ROE sobe. No terceiro, ele sobe justamente na empresa que vem de um histórico ruim, o que é o oposto do que o número parece dizer.

Quando o patrimônio é negativo

Levando o caso anterior ao extremo: uma empresa que acumula prejuízo por muitos anos pode chegar a patrimônio líquido negativo, quando deve mais do que possui.

Aí acontece uma inversão perigosa. Prejuízo dividido por patrimônio negativo dá um número positivo, e a empresa em pior situação passa a exibir o ROE mais alto da lista. Não é um caso raro nem teórico: acontece com companhias em recuperação judicial.

Por isso, neste site, patrimônio negativo faz o ROE ficar vazio. E ROE muito alto passa por uma segunda conferência, comparando com o caminho alternativo do cálculo: quando os dois discordam muito, o número é descartado em vez de publicado.

ROE e ROIC: a diferença que importa

O ROIC responde à mesma pergunta do ROE com uma correção fundamental: ele mede o retorno sobre todo o capital investido, próprio e de terceiros, e não apenas sobre o dos sócios.

Voltando às duas empresas fictícias do exemplo anterior, que geram os mesmos R$ 30 milhões: pelo ROE elas parecem muito diferentes, 10% contra 30%. Pelo ROIC, que considera os R$ 300 milhões usados nos dois casos, elas aparecem lado a lado.

É por isso que o ROIC é considerado a medida mais honesta de eficiência operacional, enquanto o ROE mede o retorno para quem tem a ação, alavancagem incluída. Os dois são úteis, e respondem a perguntas diferentes. Ler um sem o outro é o que produz a maior parte das conclusões erradas sobre rentabilidade.

ROE lido junto com o P/VP

O ROE ganha muito quando lido ao lado do P/VP. Um mede quanto lucro o patrimônio gera; o outro mede quanto o mercado cobra por esse mesmo patrimônio.

Empresa que gera muito lucro sobre o capital dela normalmente negocia acima do patrimônio, e isso faz sentido. A combinação que costuma chamar atenção é ROE alto com P/VP baixo, porque significa que o mercado está cobrando pouco por uma capacidade alta de gerar lucro. Isso não é conclusão, é pergunta: existe quase sempre um motivo, e vale descobrir qual.

Como este site usa o ROE

O ROE é um dos indicadores que compõem o Grau de Oportunidade, com peso alto na configuração padrão. A régua é: quanto maior, mais pontos, dentro de uma faixa definida.

Duas proteções são aplicadas antes de o número virar nota. Patrimônio negativo faz o indicador ficar vazio, pelo motivo já explicado. E ROE muito acima do normal passa pela conferência do segundo caminho de cálculo, descartando o valor quando as duas contas discordam muito. As duas regras existem porque o ROE é o indicador mais fácil de inflar de todos os que este site usa.

O peso do ROE dentro do Grau é você quem define, no painel de critérios. O perfil "Rentabilidade", já pronto no painel, aumenta o dele e o do ROIC. A página da metodologia mostra a fórmula completa.

Quando engana, em resumo

Quando engana

Alavancagem disfarçada de eficiência. Dívida aumenta o ROE sem que a operação tenha melhorado, e aumenta o risco na mesma medida.

Patrimônio corroído por prejuízo acumulado. Empresa com histórico ruim tem denominador pequeno e ROE alto, exatamente ao contrário do que o número sugere.

Patrimônio negativo inverte o sinal. Prejuízo dividido por patrimônio negativo produz um ROE positivo alto na empresa em pior situação.

Lucro não recorrente. Venda de ativo ou ganho judicial inflam o numerador por um ano só.

Comparação entre setores. Energia e saneamento operam com ROE naturalmente menor por exigirem muito capital, e isso não os torna piores.

O que ele não diz. O ROE mede o retorno sobre o capital dos sócios em um período que já passou. Ele não distingue lucro que veio da operação de lucro que veio de um evento único, não enxerga a dívida que ampliou o resultado e não sabe se aquele patrimônio encolheu por escolha ou por prejuízo. Lido com o ROIC e o endividamento ao lado, é um dos indicadores mais informativos que existem. Lido sozinho, é um dos que mais engana.

Este é um dos indicadores usados no rank do Garimpando Ações. Veja também o P/L, o P/VP e o Dividend Yield explicados por inteiro, os demais em como ler os indicadores de uma ação, e a conta que transforma todos numa nota única na metodologia.