Garimpando Ações

ROIC: o que é, como calcular e quando engana

O ROIC é o indicador que responde à pergunta mais direta que se pode fazer sobre um negócio: o dinheiro que foi posto aqui dentro rende quanto? Ele é menos citado que o ROE e mais difícil de maquiar, e essas duas coisas têm a mesma causa.

Esta página explica o indicador inteiro: a conta, o que entra no tal capital investido, por que ele quase sempre fica abaixo do ROE da mesma empresa, e o número de comparação sem o qual ele não significa nada. Os exemplos usam empresas fictícias e números redondos, de propósito: o que precisa ficar visível é a conta, não o mercado de um dia específico.

A pergunta que ele responde

Cada real posto para trabalhar dentro desta empresa produz quanto de lucro por ano?

Uma empresa é, no fundo, uma máquina que recebe dinheiro e devolve mais dinheiro. Esse dinheiro entra por duas portas: o que os sócios puseram e deixaram lá dentro, e o que os credores emprestaram. O ROIC junta as duas portas, olha o total que está lá dentro trabalhando e pergunta quanto a operação devolve sobre isso.

É uma pergunta diferente da que o P/L faz. O P/L pergunta se a ação está cara, ou seja, compara o lucro com o preço que o mercado pede pela empresa. O ROIC ignora o preço por completo: ele compara o lucro com o capital que está dentro do negócio. Uma empresa pode ser excelente pelo ROIC e péssima compra pelo preço, e o contrário também acontece.

A conta, parte por parte

Lucro operacional depois do imposto, dividido pelo capital investido no negócio.

Cada metade dessa frase tem uma razão de ser, e vale abrir as duas.

Por que lucro operacional, e não lucro líquido

O lucro líquido já desconta os juros pagos aos credores. Se ele fosse o numerador, uma empresa endividada apareceria com um retorno menor não porque a operação dela é pior, mas porque parte do resultado foi embora em juros. Só que a dívida está no denominador do ROIC, como capital investido. Descontar os juros em cima e manter a dívida embaixo seria punir a mesma coisa duas vezes.

Por isso o numerador é o lucro operacional, aquele que a empresa produz antes de pagar juros e imposto. Ele mede o que a operação gerou, independentemente de o dinheiro ter vindo de sócio ou de banco.

Por que depois do imposto

O imposto é uma saída real de caixa e não volta. Um lucro operacional de R$ 100 milhões não fica todo disponível: uma parte vai para o governo. Usar o número antes do imposto inflaria o retorno de qualquer empresa. A conta desconta a alíquota efetiva que aquela empresa de fato paga, e não uma alíquota teórica igual para todo mundo, porque incentivo fiscal e prejuízo acumulado de anos anteriores fazem empresas do mesmo setor pagarem percentuais bem diferentes.

Um exemplo com números redondos

Uma indústria fictícia tem lucro operacional de R$ 200 milhões no ano e paga 30% de imposto. Dentro dela estão R$ 800 milhões de patrimônio dos sócios e R$ 400 milhões de dívida, e ela mantém R$ 200 milhões parados em caixa.

O lucro operacional depois do imposto:

200 × (1 − 0,30) = R$ 140 milhões

O capital investido:

800 + 400 − 200 = R$ 1.000 milhões

E o ROIC:

140 ÷ 1.000 = ROIC de 14%

O que conta como capital investido

Essa é a parte que mais varia de uma fonte para outra, e onde nasce a maior parte das diferenças entre o ROIC que um site mostra e o que outro mostra.

O caminho mais comum é o de cima: somar o patrimônio líquido com toda a dívida onerosa e subtrair o caixa. A lógica é olhar de onde veio o dinheiro. O patrimônio é o que os sócios puseram, a dívida é o que os credores emprestaram, e o caixa sai da conta porque dinheiro parado não está produzindo o lucro operacional que está no numerador. Deixar o caixa dentro faria uma empresa com muito dinheiro na conta parecer menos rentável do que a operação dela é.

Há um segundo caminho, que olha o outro lado do balanço: pegar o ativo total e subtrair o passivo circulante. A ideia é enxergar onde o dinheiro está aplicado, e descontar o que os fornecedores financiam de graça. Os dois caminhos deveriam chegar perto um do outro, e quando eles divergem muito costuma haver algo incomum na estrutura da empresa.

Arrendamento é dívida. Pela norma contábil vigente, o compromisso de aluguel de longo prazo aparece no balanço como obrigação. Uma varejista com centenas de lojas alugadas carrega um valor relevante aí. Deixar isso de fora do capital investido faz o indicador parecer melhor do que é, principalmente em varejo, logística e aviação, onde o aluguel de longo prazo é parte do modelo de negócio.

A diferença entre ROIC e ROE

Os dois parecem medir a mesma coisa e medem coisas diferentes. A diferença é o denominador, e ela muda tudo.

O ROE divide o lucro pelo patrimônio dos sócios. O ROIC divide pelo patrimônio mais a dívida. Ou seja: o ROE olha o retorno sobre o dinheiro dos donos, e o ROIC olha o retorno sobre todo o dinheiro que está lá dentro, venha de onde vier.

A consequência prática é que dívida aumenta o ROE e não aumenta o ROIC. Vale ver isso com números.

Duas empresas fictícias têm exatamente a mesma operação: R$ 1.000 milhões de capital dentro do negócio, produzindo R$ 140 milhões de lucro operacional depois do imposto. A diferença entre elas é só como o dinheiro entrou.

A primeira é financiada só pelos sócios: R$ 1.000 milhões de patrimônio, nenhuma dívida. A segunda tem R$ 400 milhões de patrimônio e R$ 600 milhões de dívida, e paga R$ 48 milhões de juros por ano depois do imposto.

Primeira: ROIC 140 ÷ 1.000 = 14% · ROE 140 ÷ 1.000 = 14% Segunda: ROIC 140 ÷ 1.000 = 14% · ROE (140 − 48) ÷ 400 = 23%

A segunda empresa mostra um ROE bem maior sem ter melhorado nada na operação. Ela apenas trocou capital próprio por capital de terceiros. O ROIC não se mexe, porque a dívida que inflou o ROE está no denominador dele.

Isso não significa que a segunda seja pior. Dívida é uma ferramenta legítima e, enquanto o negócio render mais do que custa o empréstimo, ela multiplica o retorno dos sócios. O que precisa ficar claro é que aquele ROE maior vem com risco maior anexado: se o lucro operacional cair, os juros continuam do mesmo tamanho, e a mesma alavanca que multiplicava para cima multiplica para baixo.

Por isso os dois indicadores se leem juntos. ROE muito acima do ROIC é a assinatura de uma empresa alavancada, e a pergunta seguinte deixa de ser sobre rentabilidade e passa a ser sobre quanto ela deve.

O número que dá sentido ao ROIC

Um ROIC de 12% é bom ou ruim? A pergunta não tem resposta sozinha, e essa é provavelmente a parte mais importante desta página.

O capital que está dentro da empresa não é de graça. Os credores cobram juros, e os sócios, ainda que não emitam boleto, poderiam ter posto aquele dinheiro em outro lugar. Existe portanto um custo médio daquele capital. Se a empresa produz um retorno acima desse custo, ela cria valor. Se produz abaixo, ela consome valor, mesmo dando lucro contábil.

Uma empresa com ROIC de 12% cujo capital custa 9% está gerando três pontos percentuais de valor ao ano sobre tudo que tem dentro. A mesma empresa, com ROIC de 12% e capital custando 15%, está destruindo três pontos ao ano, ainda que o demonstrativo mostre lucro e ela pague dividendos.

É por isso que o ROIC sobe e desce de significado conforme o juro do país. Quando a taxa básica está alta, o custo do capital sobe junto, e um retorno que bastava em um cenário de juro baixo deixa de bastar. O indicador não sabe disso: quem compara é quem lê. É a mesma razão pela qual este site mostra a Selic e o IPCA no alto da página do rank.

Negócio leve e negócio pesado

O denominador do ROIC é quanto capital o negócio precisa para funcionar, e isso varia enormemente de uma atividade para outra.

Uma empresa de software precisa de pouco: alguns computadores, pessoas e tempo. O capital investido dela é pequeno, então mesmo um lucro modesto produz um ROIC alto. Uma siderúrgica precisa de altos-fornos, minas, portos e frota. O capital investido é enorme, e ela precisa de um lucro enorme para chegar ao mesmo percentual.

Isso quer dizer que comparar ROIC entre setores diferentes informa pouco. Um ROIC de 30% em software pode ser apenas o normal daquela atividade, e um ROIC de 10% em uma concessionária de energia pode ser excelente para o que se espera de um negócio regulado, de capital pesado e receita previsível.

A comparação que rende mais é a da empresa contra as concorrentes diretas dela, e a da empresa contra a própria história. Uma companhia cujo ROIC vem caindo ano após ano está precisando de cada vez mais capital para produzir o mesmo lucro, e isso é uma informação relevante mesmo que o nível absoluto continue parecendo confortável.

O que uma aquisição faz com o indicador

Quando uma empresa compra outra por um valor acima do patrimônio contábil da comprada, a diferença entra no balanço da compradora como um ativo. O capital investido cresce imediatamente, e o lucro da empresa adquirida leva tempo para aparecer inteiro no resultado.

O efeito é um ROIC que despenca no ano da compra sem que a operação tenha piorado. E o efeito contrário também existe: empresas que fizeram aquisições caras há muitos anos carregam esse valor no denominador para sempre, e aparecem com ROIC estruturalmente baixo.

Nenhum dos dois casos é erro de cálculo. São situações em que o número está aritmeticamente certo e a leitura precisa de contexto que o indicador não carrega.

Por que ele não se aplica a bancos

Para uma indústria, a dívida é a forma de financiar a operação. Para um banco, captar dinheiro é a operação. O depósito do cliente e o dinheiro tomado no mercado são a matéria-prima do negócio, não o financiamento dele.

Colocar tudo isso no denominador do ROIC produz um número minúsculo para qualquer instituição financeira, por melhor que ela seja. Não é que o banco tenha ido mal: é que a conta não descreve o que ele faz. Quem mede solidez e rentabilidade de banco são outros indicadores, entre eles o Índice de Basileia, que compara o capital próprio com o risco que a instituição assumiu.

É a mesma lógica pela qual a liquidez corrente também sai da conta em bancos, e pela qual a Basileia só faz sentido dentro deles.

Como este site usa o ROIC

O ROIC é um dos indicadores pontuados no rank de ações. O cálculo segue o que está descrito aqui: lucro operacional do exercício, descontada a alíquota efetiva daquela empresa, dividido pelo capital investido do mesmo exercício. Misturar o lucro de um ano com o balanço de outro produziria uma razão entre coisas que não se referem ao mesmo período.

Três situações fazem o indicador ficar vazio em vez de virar zero: empresa do setor financeiro, pelo motivo da seção anterior; capital investido igual ou menor que zero, o que acontece quando o patrimônio é negativo ou o caixa supera tudo, e nesse caso a divisão não descreve nada; e resultados absurdamente fora de escala, que indicam dado quebrado na origem.

Indicador vazio sai dos dois lados da média no cálculo da nota, ou seja, a empresa não é premiada nem punida por um número que não existe. A conta completa está na metodologia.

Quando engana, em resumo

Quando engana

Comparação entre setores diferentes. Negócio leve produz ROIC naturalmente alto e negócio de capital pesado produz ROIC naturalmente baixo, sem que isso diga qual é melhor.

Sem o custo do capital ao lado. Um retorno de 12% é criação de valor em um cenário e destruição de valor em outro, e o indicador sozinho não distingue os dois.

Lucro operacional que não se repete. Ganho não recorrente inflado no numerador levanta o ROIC de um ano e some no seguinte.

Aquisição recente. O capital entra no balanço na hora e o resultado da empresa comprada chega depois, derrubando o indicador sem que a operação tenha mudado.

Empresa encolhendo. Quem vende ativos e corta investimento reduz o denominador e pode exibir um ROIC crescente justamente enquanto o negócio diminui.

Capital investido muito pequeno. Quando o denominador é quase zero, qualquer lucro produz um percentual enorme, e o número deixa de significar alguma coisa.

O que ele não diz. O ROIC mede o retorno sobre o capital que já está dentro da empresa, e mede isso olhando para um exercício que terminou. Ele não sabe se o próximo real investido vai render o mesmo, não conhece o preço que o mercado está pedindo pela ação, e não diz se aquele retorno é suficiente para o custo do capital daquela empresa. É um retrato da eficiência do negócio, não uma medida de oportunidade.

Este é um dos indicadores usados no rank do Garimpando Ações. Os demais estão explicados em como ler os indicadores de uma ação, e a conta que transforma todos eles numa nota única está na metodologia.