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Como ler os indicadores de um fundo imobiliário

Fundo imobiliário se lê de outro jeito que ação, e isso não é detalhe. Um fundo não tem operação. Ele não vende nada, não tem margem, não tem funcionários produzindo. Ele possui imóveis ou títulos, recebe aluguel ou juros, e repassa.

Por isso metade dos indicadores que se usa numa empresa não faz sentido aqui, e existem outros que só existem neste mundo.

Esta página explica os indicadores usados neste site para fundos, agrupados pela pergunta que cada grupo faz. Os exemplos usam fundos fictícios e números redondos, de propósito: o que precisa ficar visível é a conta.

Antes dos indicadores, porém, duas coisas precisam estar claras, porque elas mudam a leitura de tudo que vem depois.

O rendimento não é escolha do gestor, é lei

Por que o rendimento de um fundo se lê de outro jeito.

Uma empresa distribui lucro se quiser, quanto quiser, quando quiser. Um fundo imobiliário é obrigado a distribuir pelo menos 95% do lucro apurado, no mínimo a cada semestre. Na prática, quase todos pagam todo mês.

Isso tem três consequências que vale carregar para o resto da página.

O rendimento é o produto, não um extra. Quem compra cota de fundo está comprando aquele fluxo mensal. Numa ação, o dividendo é uma das formas de retorno; num fundo, é a principal.

O gestor tem pouca margem para guardar para depois. Empresa retém lucro para investir e crescer. Fundo não pode reter quase nada, então crescer exige emitir novas cotas e captar dinheiro dos investidores.

Rendimento distribuído a pessoa física é isento de imposto de renda, desde que o fundo tenha ao menos 50 cotistas, seja negociado em bolsa e o investidor não detenha 10% ou mais das cotas. Essa isenção é uma das razões de o produto existir no formato que existe. Ela vale para o rendimento, não para o lucro na venda da cota, que é tributado.

Fundo de tijolo e fundo de papel

Dois fundos com o mesmo rendimento podem ser coisas completamente diferentes.

Fundo de tijolo possui imóveis. Galpões, shoppings, lajes corporativas, hospitais. A renda vem do aluguel, e os riscos são os do imóvel: o inquilino sair, o inquilino não pagar, o imóvel desvalorizar.

Fundo de papel possui títulos ligados ao setor imobiliário, principalmente CRI, que é um empréstimo com lastro em imóvel. A renda vem de juros, e os riscos são os do crédito: quem tomou o dinheiro não devolver.

Existe ainda o fundo de fundos, que compra cotas de outros fundos, e o híbrido, que faz um pouco de cada.

Como saber qual é qual. No detalhe de cada fundo, este site mostra o tipo: tijolo, papel, híbrido ou fundo de fundos. E o rank tem um filtro por tipo, que permite olhar só os fundos de tijolo ou só os de papel, em vez de compará-los todos na mesma lista.

Ao lado disso continua aparecendo quantos imóveis o fundo declara no informe mensal da CVM. Os dois se confirmam: fundo de tijolo tem imóveis, fundo de papel não tem nenhum. Quando um fundo aparece classificado como tijolo e sem imóvel algum, ou o contrário, vale desconfiar do rótulo e olhar o relatório do fundo.

Isso importa porque dois indicadores desta página só existem para fundo de tijolo: vacância e inadimplência. Um fundo de papel não tem imóvel para ficar vago, então não é avaliado neles.

Quanto paga

Quanto pinga na conta, e essa quantia vem subindo ou caindo?

Dividend Yield, o rendimento mensal

O que é. Quanto o fundo distribuiu em dinheiro aos cotistas ao longo de um ano, comparado ao preço da cota.

Soma dos rendimentos por cota nos últimos doze meses, dividida pelo preço da cota.

Um exemplo. Uma cota custa R$ 100 e o fundo pagou R$ 0,80 por mês ao longo do ano, somando R$ 9,60.

9,60 ÷ 100 = dividend yield de 9,6% Quando engana

O denominador é o preço, e o preço cai. Se a cota despenca e o fundo continua pagando o mesmo, o yield sobe sem que nada de bom tenha acontecido. Um rendimento muito acima dos demais merece a pergunta: subiu o que ele paga, ou caiu o que ele vale?

Nem tudo que é distribuído é lucro. Um fundo pode devolver capital aos cotistas, e isso aparece no mesmo campo do rendimento. O yield fica alto e o patrimônio encolhe na mesma proporção. É dinheiro seu voltando, não renda gerada.

Venda de imóvel infla um ano. O ganho da venda entra no lucro e é distribuído, produzindo um rendimento excepcional que não se repete no ano seguinte.

CAGR de dividendos, o crescimento do rendimento

O que é. A que ritmo médio anual o rendimento distribuído cresceu ao longo de três anos.

Taxa composta entre o total distribuído há três anos e o total distribuído no último período.

Um exemplo. Um fundo distribuiu R$ 8 por cota no ano de três anos atrás, e R$ 10 por cota no último ano.

crescimento de 25% em três anos = CAGR de 7,7% ao ano

Por que importa. O dividend yield mostra quanto o fundo paga hoje. Este mostra se esse pagamento vem subindo ou encolhendo. Dois fundos com o mesmo yield podem estar em trajetórias opostas.

Quando engana

Três anos é uma janela curta. Basta um evento excepcional numa das pontas para distorcer tudo. A venda de um imóvel no ano final infla o crescimento; a mesma venda no ano inicial o afunda.

Devolver capital parece crescimento. Se o fundo distribuiu principal em vez de renda em algum ano, aquele número entra na conta como se fosse rendimento.

Fundo novo não tem. Sem três anos de histórico, o indicador não existe. Neste site ele fica em branco e sai da conta, em vez de virar zero.

Quanto custa

O mercado está pagando caro perto do que os ativos valem?

P/VP, preço sobre valor patrimonial

O que é. Compara o que o mercado cobra pela cota com o que os ativos do fundo valem segundo a avaliação oficial.

Preço da cota dividido pelo valor patrimonial por cota.

Um exemplo. Um fundo tem patrimônio de R$ 100 milhões e 1 milhão de cotas. Cada cota carrega, portanto, R$ 100 de patrimônio. Se ela está sendo negociada a R$ 90:

90 ÷ 100 = P/VP de 0,90

O mercado está pagando 90% do que os ativos valem na avaliação.

Por que aqui esse número diz mais que numa ação. No balanço de uma empresa, boa parte do patrimônio é custo histórico: a máquina comprada há dez anos entra pelo que custou. Num fundo imobiliário, os imóveis são reavaliados periodicamente por laudo, então o valor patrimonial é uma estimativa recente do que aquilo vale de verdade. Comparar preço com uma avaliação atual é bem mais informativo do que comparar com um registro antigo.

Quando engana

A avaliação tem data, o preço é de agora. O laudo é periódico, em geral anual. Entre uma avaliação e outra, o mercado se move e o valor patrimonial fica parado. Um P/VP baixo pode significar apenas que a avaliação está velha.

Num fundo de papel, o patrimônio é a carteira de títulos. Um CRI que deixou de ser pago pode continuar registrado pelo valor cheio até que a gestora reconheça a perda. O P/VP parece baixo, mas o patrimônio de referência é que está alto demais.

Desconto pode ser antecipação. Quando o mercado paga bem abaixo do valor patrimonial, às vezes é pessimismo exagerado, às vezes é o mercado já sabendo de uma desvalorização que o próximo laudo vai reconhecer.

Como estão os imóveis

O inquilino está lá, e está pagando?

Vacância

O que é. Quanto da área do fundo está sem inquilino.

Área vaga dividida pela área total. Quando um fundo tem imóveis de tamanhos muito diferentes, faz mais sentido ponderar pela participação de cada um na receita.

Um exemplo. Um fundo tem dez galpões de tamanho parecido e um deles está desocupado.

1 ÷ 10 = 10% de vacância

Só existe para fundo de tijolo. Fundo de papel não tem imóvel para ficar vago, e neste site ele não é avaliado neste indicador nem penalizado por isso.

Quando engana

Nem toda vacância pesa igual. Se o galpão vago é o que respondia por 40% do aluguel, o impacto no rendimento é muito maior do que os 10% de área sugerem.

Zero hoje não é zero amanhã. Um contrato que vence no ano que vem não aparece como vacância agora, mesmo que o inquilino já tenha avisado que vai sair.

Nem todo fundo preenche o campo do mesmo jeito. No informe oficial aparecem valores claramente inconsistentes, como um fundo de vários shoppings declarando vacância acima de 90%. Neste site, números impossíveis são descartados em vez de exibidos, e o card mostra que houve descarte.

Inadimplência

O que é. Quanto do aluguel devido não foi pago.

Valor não recebido dividido pelo valor esperado no período.

Um exemplo. Um fundo esperava receber R$ 1 milhão de aluguel no mês e recebeu R$ 950 mil.

50 mil ÷ 1 milhão = 5% de inadimplência

Só existe para fundo de tijolo, pelo mesmo motivo da vacância.

Como ler. Este indicador funciona diferente dos outros. A grande maioria dos fundos reporta exatamente zero, então ele não serve para separar os bons entre si: ele serve para apontar quem tem problema. Zero mantém a nota cheia, e qualquer valor acima disso desconta rápido.

Quando engana

Atraso não é calote. Um inquilino que pagou com quinze dias de atraso aparece como inadimplência naquele mês e some no seguinte.

O número pode vir negativo. Quando um aluguel atrasado é finalmente recebido, o estorno pode produzir um percentual negativo. Não significa que o fundo recebeu mais do que devia, significa que uma dívida antiga entrou.

Um inquilino grande distorce tudo. Num fundo de poucos imóveis, a inadimplência de um único locatário produz um número alto sem que a carteira esteja doente.

Que fundo é este

De que tamanho, com quanta folga, e em que trajetória?

Número de cotistas

O que é. Quantas pessoas são donas do fundo.

Um exemplo. Um fundo com 50 mil cotistas e outro com 200. O primeiro tem suas cotas espalhadas por muita gente; o segundo está concentrado em poucas mãos.

Por que isso é um indicador e não só uma curiosidade.

Liquidez. Fundo com poucos cotistas costuma ter pouco negócio por dia. Comprar é difícil sem empurrar o preço para cima, e vender é difícil sem derrubá-lo.

Preço mais confiável. Quanto mais gente negociando, menos uma única ordem grande distorce a cotação.

A isenção depende disso. A isenção de imposto de renda sobre o rendimento exige que o fundo tenha ao menos 50 cotistas. Um fundo abaixo disso não oferece o principal benefício do produto.

Quando engana

Muita gente não quer dizer bom fundo, quer dizer fundo popular. Distribuição ampla vem de esforço comercial da gestora, e não necessariamente de qualidade dos imóveis.

O número cresce com emissão. Cada nova captação traz cotistas novos, então o crescimento nesse indicador pode refletir marketing e não desempenho.

Percentual em caixa

O que é. Quanto do patrimônio do fundo está em dinheiro parado, em vez de investido em imóvel ou título.

Caixa dividido pelo patrimônio líquido do fundo.

Um exemplo. Um fundo tem patrimônio de R$ 500 milhões e mantém R$ 20 milhões em conta.

20 ÷ 500 = 4% em caixa

Este é o único indicador do site onde o melhor não é nem o maior nem o menor. Todos os outros pontuam numa direção só. Aqui existe um meio, e a razão é que os dois extremos têm problema.

Neste site, a faixa considerada equilibrada vai de 3% a 6%. Abaixo de 1% a folga é curta demais, e a nota cai bastante. Acima de 15% o dinheiro parado já pesa, e acima de 25% a nota cai ao mínimo.

Por que pouco é ruim. Voltando ao exemplo: um fundo de R$ 500 milhões com apenas R$ 2 milhões em caixa tem 0,4%. Basta a reforma de um andar, dois meses de inadimplência de um inquilino grande, ou o condomínio de uma unidade que ficou vaga, e ele precisa vender ativo às pressas ou cortar o rendimento.

Por que muito também é. O mesmo fundo com R$ 150 milhões em caixa tem 30%. Quase um terço do dinheiro do cotista não está em imóvel nenhum. Quem comprou a cota queria exposição a imóvel, e está pagando taxa de administração sobre dinheiro parado.

Quando engana

Caixa alto pode ser preparação. Um fundo que acabou de captar numa emissão, ou que vendeu um imóvel e ainda não reinvestiu, aparece com caixa alto por um motivo temporário e saudável. Vale olhar se o número é assim há muito tempo ou se apareceu agora.

A foto é de um dia. O informe mostra a posição do fechamento do mês. Um pagamento grande na véspera muda o retrato sem mudar o fundo.

CAGR do valor da cota

O que é. A que ritmo médio anual o valor patrimonial da cota cresceu ao longo de três anos.

Taxa composta entre o valor patrimonial por cota de três anos atrás e o atual.

Um exemplo. O valor patrimonial por cota era R$ 90 há três anos e é R$ 100 hoje.

CAGR de 3,6% ao ano

A combinação que ensina mais. Este indicador só revela seu valor quando lido junto do CAGR de dividendos.

Um fundo com rendimento crescendo e valor da cota crescendo está gerando renda e preservando patrimônio. É o que se espera de um fundo saudável.

Um fundo com rendimento crescendo e valor da cota caindo merece atenção: pode estar distribuindo mais do que gera, encolhendo o próprio patrimônio para sustentar o pagamento. É a assinatura da devolução de capital disfarçada de renda.

Quando engana

Reavaliação mexe no número sem ninguém comprar nada. Um laudo novo que valorize os imóveis eleva o valor patrimonial da cota de uma vez, e isso aparece como crescimento naquele ano.

Emissão de novas cotas dilui ou concentra. Se o fundo emitiu cotas a preço diferente do valor patrimonial, o valor por cota muda por uma razão contábil, não operacional.

O que nenhum indicador de fundo diz

Onde as contas param e começa a leitura do relatório.

Todos os números desta página descrevem o passado registrado em documento oficial. Há coisas decisivas num fundo imobiliário que não aparecem em nenhum deles.

A qualidade do contrato. Um galpão alugado por contrato atípico de quinze anos e um alugado por contrato típico renovável a cada três produzem hoje a mesma receita e têm riscos completamente diferentes.

Quem é o inquilino. Vacância zero com um único locatário em dificuldade financeira é mais frágil do que 10% de vacância distribuída entre vinte inquilinos sólidos.

Onde fica e como está o imóvel. Localização, estado de conservação e concorrência de novos empreendimentos na região não entram em conta nenhuma.

O que a gestora vai fazer. A decisão de vender um ativo, fazer uma emissão ou trocar a estratégia muda o fundo, e nenhum indicador antecipa isso.

Por isso os números servem para fazer perguntas melhores sobre um fundo, não para dispensar a leitura do relatório mensal que a gestora publica.

No rank do Garimpando Ações todos esses indicadores aparecem juntos, fundo por fundo, e você define o peso que cada um tem na nota final. Se procura os indicadores de empresas listadas, veja como ler os indicadores de uma ação.